Sentimentos incontroláveis e ídolos eternizados

Foto: MARCELO D. SANTS/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Acordei por volta das 05h15min da manhã, levantei da cama, em seguida sentei-me para acompanhar as notícias através do Twitter, como faço em todas as manhãs. Porém, o primeiro Twitter que li, sem dúvida o mais impactante até hoje, dizia que o pessoal da Rádio Caracol, emissora colombiana, não estava nada otimista em relação a sobreviventes. Naquele momento meu coração sentiu um aperto, poucas vezes havia sentido, percebi que AQUELE não era um dia comum. Definitivamente não era. A mensagem seguinte foi devastadora. “Cai o avião que levava delegação da Chapecoense para a Colômbia”. No mesmo instante um misto de desespero e incredulidade tomou conta do meu ser. E surgiu um desejo de que fosse mais uma falsa notícia, pois todo o dia é publicado esse tipo de informação. Mas essa infelizmente não era! A partir daquele momento, por minuto, era como se o Brasil tivesse sido atingido por um tsunami: “Victorino Chermont, PJ Clement, Mario Sérgio e Deva Pascovicci, todos da FOX Sports, também estavam no avião.” e outra enxurrada: “O jovem repórter Guilherme Marques da TV Globo também estava no avião.”. A cada minuto as notícias nos destruíam um pouco mais: “As buscas por sobreviventes estão muito difíceis, devido a chuva e a escuridão no local do acidente”.
Era quase impossível passar 20 segundos rolando a timeline sem desabar em prantos. As buscas seguiam, mas a cada minuto que passava, as chances de pessoas sobreviverem caíam ainda mais: “O lateral Alan Ruschel foi o primeiro resgatado com vida”. As esperanças se renovavam: “Goleiro Jakson Follmann é outro a ser resgatado com vida”. As buscas seguiam, e as notícias também: “Repórter Rafael Henzel, além de dois funcionários da companhia aérea também são resgatados com vida”. A ansiedade por mais notícias como essa se tornou insustentável. No entanto, um hiato de boas notícias ilustrava o tom do momento. O mundo parava.
Nas redes sociais, a tristeza e o desolamento, eram mais do que nítido. Ninguém entendia como uma equipe que começou por baixo, com poucas pretensões, alcançou a torcida brasileira e seguia rumo ao momento mais glorioso de sua história, teria tido um fim tão cruel. Fato é que a vida é um mistério. E curiosamente no momento em que a Chapecoense era o clube mais amado do país, o queridinho de todo torcedor, tenha acontecido uma tragédia dessas. Fatalidade que fez TODO torcedor chorar, não somente pelas vidas perdidas, mas também por tudo que essas vidas representavam e traziam com eles: força de vontade, garra e sonhos. O sonho de conquistar a América do Sul era totalmente plausível e estava bem próximo. Mas ao invés disso, eles conquistaram o MUNDO. É incrível o apoio demonstrado pela população esportiva ou não. A torcida do Atlético Nacional-COL, adversária da Chapecoense na final, lotou o estádio em nome da solidariedade, homenageou, com uma bela cerimônia, as vítimas do acidente aéreo, deixando todo o povo brasileiro emocionado. O mundo do futebol chora a morte dos jogadores, que com toda certeza, serão eternizados na história do universo da bola.
E antes que eu me esqueça, quando os próprios bombeiros desacreditavam de qualquer possibilidade de encontrar mais algum sobrevivente, acharam NETO, zagueiro da Chape, que lutou pela vida por quase 10 horas, na chuva e no frio. Essa peleja de Neto, pela própria sobrevivência, ilustra perfeitamente a garra, a força e a vontade de vencer que o time transmitiu para aqueles que acompanharam toda sua trajetória. Nunca se render. Assim foi Neto! Assim foi a Chapecoense! Assim é Brasil!
As notícias de que Neto poderá voltar aos gramados representam não apenas um trabalhador voltando a exercer suas atividades profissionais, mas uma celebração à vida. Neto sabe que quando entrar em campo novamente, não estará sozinho, pois é certo que TODOS seus companheiros, time e comissão técnica, presentes naquele trágico voo estarão torcendo e vibrando a cada chutão, cada desarme, cada gol do zagueiro pelo resto de sua carreira. Afinal, toda vez que ele entrar em campo, estará representando ele mesmo, a Chapecoense, as 71 vítimas do desastre, as famílias afetadas, e todo o mundo do futebol, que chora a perda de seus filhos, seres humanos, que partiram com o propósito de ganhar um título, mas acabaram conquistando a imortalidade.
Parafraseando o jornalista italiano Carlo Bergoglioda, em 1949, quando a Torino-ITA, clube de futebol, perdeu todos os seus jogadores também em um acidente aéreo disse: “Talvez fosse maravilhosa demais essa equipe para envelhecer. Talvez o destino quisesse levá-la no ápice de sua beleza.” Realmente, meu caro colega. Era maravilhosa demais…